quarta-feira, 13 de março de 2019

Fábula de uma economia


A literatura tem a virtude de evidenciar a essência das coisas, sem sequer a mencionar.
Nas supostas histórias infantis, de que se salientam as fábulas, isso é ainda mais intenso.
Li, agora, “A Montanha da Água Lilás”, de Pepetela e recordei as vezes que li e reli o “Animal Farm”, de George Orwell, sem acreditar o quanto era possível mostrar tudo sem dizer nada. Nessa altura, algures no milénio passado, estava-se em exuberante guerra fria e o comunismo era uma doutrina e uma realidade que dominava metade do mundo. A metade que não era a nossa. Do lado de cá da História, o liberalismo capitalista prometia e as sociedades de consumo ocidentais prosperavam. Chegou a parecer que ia durar sempre e ser suficiente para todos. Apesar de ganhar a guerra fria com o aquecimento que a saída dos choques petrolíferos proporcionou, não se viu proliferar no Ocidente a distribuição de riqueza que o mercado livre criava. Pelo contrário. Embora, em geral, se viva melhor, a concentração da riqueza em pouquíssimos tem sido uma tendência crescente. Todas as pessoas vivem melhor, mas muito poucas vivem mais melhor que todas as outras.
“Animal Farm” é uma fábula política, “A Montanha da Água Lilás” é uma fábula económica. Numa e noutra está lá tudo.
A essência da natureza humana, dê lá por onde der, vai dar sempre no mesmo.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Caridade hoje não é dar, é aceitar receber



A caridade, hoje em dia, não está em dar, está em receber.
Em sociedades de sufocante abundância, desfazer-se do que não se precisa, do que não se usa, é altamente traumático, desde a escolha e o desapego, até conseguir encontrar um destino para o excesso. Quem recebe faz um favor e a gratidão de quem dá, aliada à estereotipada sensação de ser bom, é uma bênção provavelmente não merecida.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

segunda-feira, 13 de março de 2017

Computador com células do cérebro vivas


Atenção que esta novidade é velha. É de março de 2016. Tem, portanto, cerca de um ano. Fazer um computador com células de cérebro vivas é passado, não é ficção científica.

Um drone com olfato de abelha para conseguir cheirar bombas a vários quilómetros de distância.

A biologia era a última fronteira. Vai deixando de ser.

O futuro é só algo que ainda não nos aconteceu. O não significa que não tenha já acontecido a outros.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Já chegou



Havia uma polémica pouco intensa sobre aprender línguas estrangeiras.

A posição clássica, maioritária e obviamente sensata, era a de que aprender línguas, pelo menos a língua franca corrente que é o inglês, era muito importante de um modo geral, indispensável num mundo conectado e imprescindível no mundo (a)nacional da ciência.  
A posição vanguardista, minoritária e obviamente louca era a de que muito rapidamente se tornaria desnecessário aprender língua(s) estrangeira(s), porque a tradução simultânea iria ficar ao alcance imediato das pessoas. De todas, enfim, de quase todas, as pessoas.
Para o desenvolvimento da tradução em massa global contribuiram principalmente a Google, pela iniciativa aliada à dimensão e a colaboração coletiva (crowdsoursing) que a internet torna possível escalar até ao infinito.
A Google pediu-nos, a todos os milhões que pelo mundo inteiro usamos o motor de busca, que o ensinássemos a escrever e depois a falar em várias línguas, potencialmente em todas as línguas. O bebé Google, especialmente dotado, teve a humanidade como professor.
A colaboração coletiva sempre existiu e a internet difundida através de dispositivos móveis, mas também de dispositivos imobilizados, aboliu a distância física, criando a proximidade que é pressuposto dessa colaboração, tornando-a possível a um nível global.

A velocidade a que tudo acontece neste século XXI deve-se, em muito, à disponibilidade do conhecimento que permite que se trabalhe sobre e a par do que outros estão a fazer, progredindo mais e também mais depressa.
A possibilidade de nos entendermos, em qualquer língua, será certamente mais um passo para a aceleração.

A ver se nós, simplesmente humanos, aguentamos a pressão.
Ou, numa perspetiva mais otimista que se justifica olhando para tudo aquilo de que a humanidade tem sido capaz, vamos ver como nós, humanos, aguentamos a pressão. Provavelmente deixando de ser “simplesmente humanos”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O futuro vai ser barato – muito barato


Estamos habituados a pagar, muito, pelas coisas básicas de que precisamos para viver e pelas menos básicas que nos habituámos a considerar imprescindíveis. Casa, alimentação, transporte, saúde, educação, entretenimento, lazer, obrigam-nos a trabalhar de modo a não conseguir usufruir devidamente de nenhuma e a nunca ser suficiente o que ganhamos.
Esta realidade vai mudar. Tudo vai ser muito mais barato e acessível. Se isso nos fará trabalhar menos e aproveitar mais, vamos ver.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

We spoke data



Dois designers, um de Londres, outro de Nova Iorque, corresponderam-se através de correio postal, sobre informação do dia a dia, através de sinais, o que deu arte.